Padrões de beleza: antigos ou atuais

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

O corpo sempre esteve submetido aos padrões de beleza ditados pelos “modelos” que cada sociedade/cultura elege a seu tempo e modo. Na China, por 1.500 anos, milhões de mulheres de todas as classes sociais foram submetidas ao padrão de beleza de pés com no máximo 12cm, eleito pelos homens poderosos para satisfazer seus desejos sexuais. A ignição do desejo desses homens poderosos era tocar e ser tocado por pés assim. Esse padrão só foi proibido em 1911. Todavia, uma prática milenar não é extinta com decretos. A internalização de um padrão de beleza é tecida pela teia do poder da alienação na interface com o poder da sedução: pés de no máximo 12cm eram o passaporte para a seleção daquelas que gozariam do status de casadas. O desejo de ser admirada e amada e a promessa de concretização do sonho de casar com um poderoso homem e ser feliz para sempre não se consegue extinguir tão rapidamente.

O kit alienante é tão perfeito que a transmissão geracional imbuída da força que toda crença possui permite que o tal modelo seja naturalizado. Pode parecer estranho para nós essa prática de enfaixar os pés, quebrar seus ossos de modo a impedir a força do ritmo da natureza – tal como é feito com os bonsais (árvores em miniatura cultivadas em vasos de cerâmica de forma controlada através do uso de técnicas específicas). Perplexidade?! Uma olhadinha nos padrões de beleza atuais de nossa cultura pode ser interessante: magreza absoluta, obtida a custa de regimes que comprometem a qualidade de vida de quem os segue.

Profissionais responsáveis divulgam e orientam clientes sobre os riscos de algumas cirurgias estéticas comprovados por pesquisas médicas e os instigam a reverem desejos de autorrealização afetivo-sexual por meio da adequação de nádegas, abdômen, coxas, seios e lábios (para citar apenas alguns exemplos) aos modelos divulgados pela mídia. Outro aspecto a ser registrado diz respeito à feminização do corpo. Travestis e drags também em busca dessa autorrealização inscrevem, marcam o corpo com injeções de silicone, aplicações de botox, piercings e tatuagens além de submeterem-se a várias cirurgias plásticas. Homens e mulheres fetichizam o corpo para satisfazer o parceiro (a) atento às novidades; submetem o corpo a anabolizantes, a horas e horas de atividade física, a medicamentos e regimes miraculosos. Afinal, podemos indagar: Temos ou não algo em comum com o padrão dos pezinhos de 12cm?

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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