Orientação homoafetiva: meu filho é “diferente”! O que fazer?

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

Este artigo foi elaborado atendendo a pedidos (via e-mail) de pais e mães que se sentem despreparados para acolher/lidar com a orientação sexual homoafetiva de seus/suas filhos/as de que compartilhe minha reflexão acerca do homoerotismo de adolescentes. Os desabafos são testemunhos de desconfortos vividos pelos familiares.

“Tenho um filho com 14 anos e desde os cinco anos eu e o pai dele percebíamos que ele tinha jeito de menina, até nos traços físicos. Era delicado e apreciava tudo que menina gosta. Esse jeito dele levou-nos a pensar muito de que jeito seria a sua adolescência. Esses anos todos têm sido muito difíceis para nós. Meus irmãos sempre que vêm nos visitar contam aquelas piadinhas de bichas. E eu choro, pois sei que dirigem ao meu filho. Quando saímos juntos, eu noto que ele é olhado por alguns homens que pelo jeito são homossexuais. É muito duro você ter um filho e ver que ele é diferente outros. Ele não é o que a gente sonhava. Queria um filho que fosse homem. Mas ele é fraquinho no falar e todo delicado, sabe… tem todo aquele maneirismos de bicha… Eu morro de vergonha. O podemos fazer? Ele é o nosso filho, como aceitar um filho bicha?” (Profissional liberal, 40 anos).

“Ajude-nos… Ontem fomos ao Shopping e fiquei chocado de ver duas adolescentes namorando. E comentei com minha esposa e com minha filha: ‘Nem olha! Isso é uma pouca vergonha!’. Minha esposa calou-se, mas minha filha de 13 anos respondeu: ‘Eu não acho. Porque duas mulheres não podem namorar?’ Fiquei tão nervoso que nem respondi nada para ela. Só que isso me tirou o sossego. Será que minha filha gosta de mulher? Como que é isso? Agora a coisa está assim?” (Funcionário público, 50 anos).

Perplexidade, angústia, preconceito, estigma afloram diante da constatação da visibilidade do homoerotismo expresso por adolescentes. Suas práticas e valores, cada vez mais evidentes nessa primeira década do século XXI, vêm abalando os “firmes alicerces” da concepção de gênero fundamentados na heteronormatividade. Essa realidade compõe o processo de transformação que a família moderna vem vivenciando, ou seja, constitui o mosaico da família contemporânea. Um mosaico que reflete não apenas essas mudanças, mas também aquelas nas relações da divisão do trabalho, do poder, do consumo, enfim, transformações que ganharam visibilidade principalmente através da mídia. Todos esses movimentos se refletem no modo do adolescente expressar sua orientação afetivo-sexual dentro da família a qual pertence.

Cada família tem sua própria história em relação ao homoerotismo. E não raro mesmo aquelas famílias tradicionais – “firmes em seus alicerçares heteroeróticos” –, em segredo, sabiam que o homoerotismo se expressava num ou noutro parente. Para aliviarem o desconforto decorrente do preconceito/estigma, algumas chegavam até a expulsar o/a filho/a do convívio familiar. “O que os olhos não veem, o coração não sente”.

Os tempos mudaram! O coração sente o que os olhos não querem ver. Reconheço no desabafo desses relatos as dificuldades vividas pelos familiares. Reconheço, igualmente, a dor e o sofrimento vivido pelo filho ao não ser aceito em sua singularidade, seu jeito de ser “fraquinho”, “delicado”. Enfim, por não ser o filho idealizado pelos pais. “O que podemos fazer?” indagam os pais. Apenas amá-lo! O amor retira a viseira dos preconceitos e estigmas. Percebam essa abertura/descortinar no questionamento da filha de 13 anos ao pai: “Porque duas mulheres não podem namorar?” Rever o processo de idealização ajuda a abrir espaço para o reconhecimento/aceitação do “diferente”.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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