O quiproquó de atos violentos

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

Assistimos, hoje, não apenas no âmbito da família – instância em que se desenvolvem as tramas dos dramas de relacionamentos -, mas também no trânsito, há um quiproquó de atos de violência. Usar as setas para indicar a direção que vai seguir é algo raro – postura quase em extinção entre os motoristas. Reduzir minimamente a velocidade e oferecer a oportunidade de passagem a outro carro é também um ato praticado por poucos. Isto sem falar dos dias chuvosos em que as ruas viram riachos temporários – molhar o pedestre parece ser o prazer mórbido do(a) motorista que aumenta a velocidade justamente quando há poças d’água! Infelizmente, essa mesma postura deselegante pode ser evidenciada nas garagens de Shopping Centers e de prédios e condomínios tanto residências quanto comerciais e financeiros, em estádios, escolas e muitos outros lugares – o clima é de desespero/compulsão/bullying!

Um detalhe – independente da classe social, grau de escolaridade e/ou gênero, a agressividade, prepotência, xingamentos e ameaças de morte, entre outros impropérios, reinam. Nesse aspecto os gêneros estão em posição de igualdade. Nesse degradé de posturas violentas nota-se, em comum, a ausência de autocontrole emocional, o qual predispõe a pessoa à agressividade, independentemente do tipo de agressão – física, psíquica,emocional ou do local onde ocorra o quiproquó: na família, nas relações sociais e laborais são frequentes. E não raro esse descontrole no ambiente de trabalho explode na família – os filhos são os mais vulneráveis e aprendizes vítimas desse nefasto comportamento/modelo. São inúmeras as consequências: as relações familiares e sociais esgarçadas pelos egos inflados de prepotência – no entanto, é preciso que saibamos que a prepotência é a ‘máscara’ dos egos inseguros, frágeis, carentes de limites e de afeto.

Egos narcísicos não aprenderam a ouvir, a trocar, a dividir com o outro. Não incorporaram normas básicas de limites – limites daquele tipo transmitido pelo dito popular: “a individualidade de um termina onde começa a do outro”. Quando a inexistência da reciprocidade se instala, a postura exibicionista conduz a criança/pessoa a se refugiar no seu próprio mundo interior e dirigir-se às relações apenas para usufruir, destruir e desfrutar de mórbidos prazeres que se obtém ao agredir, humilhar, intimidar e até matar o próximo. A outra pessoa, assim, ocupa o lugar de objeto descartável sem direito a reciclagem.

Esse comportamento nos instiga a indagar: Que razões veladas essas posturas ocultam? Como repará-las? A mídia também expõe todos os dias um corolário de posturas violentas que são consumidas pelos expectadores. Todavia, atribuir essas razões somente à mídia, às condições econômicas e ao grau de escolaridade não dá conta de uma reflexão mais ampla.

A deselegância extrapola o tipo e a origem do diploma bem como do local de moradia. Ouso pensar que o foco dessa intolerância perpassa as lições emocionais apreendidas nas relações intrafamiliares na infância e na adolescência e nas relações extrafamiliares, no âmbito da escola, grupo de amigos, congregações religiosas etc. Ambientes que auxiliam em muito a “domar/balizar” o impulso da agressão – o conhecido pavio curto – enfim, o ego inflado e a valorizar e desenvolver o seu quantum/potencial numa postura altruísta, elegante e civilizada. Para amenizar o ato de agressividade do outro, às vezes, basta um olhar de perplexidade, ou até mesmo uma resposta como: ‘Ah, o(a) Dr(a)/Senhor(a) está correto(a). Desculpe-me!’

Não entrar na onda do agressor é possível desde que o ‘agredido’ acesse seu controle emocional. Nesse momento, a lucidez assume o comando mantendo a respiração e a adrenalina sob controle. Inteligência emocional e autoestima elevada são ingredientes indispensáveis para a superação de uma ação agressiva. Com isso não estou dizendo que temos que ser “o bonzinho”, pois o bonzinho é, geralmente, uma “panela de pressão” – resguardadas as exceções – explode quando menos se espera. No noticiário ouvimos: “Jovem mata 30 colegas após ter sido expulso de sua escola.” Ressalvas: ninguém está salvo dessa epidemia social, mas precisamos dar o primeiro passo e acessarmos a nossa inteligência emocional seja no ambiente familiar, seja no trabalho, no trânsito ou outros ambientes sociais. Somos coatores nessa viagem em busca de soluções que contribuam para a vida saudável em comunidade. Como nos diz Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, a “alfabetização emocional” pode ser o primeiro passo para humanizar as relações familiares, laborais e sociais.

Quer saber mais? Livro Envelhecimento Humano: Diferentes Perspectivas organizado por Maria Alves de Toledo Bruns e Maria Cândida Soares Del-Masso. Editora Alínea/2007.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidade & Vida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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