O homem contemporâneo

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

Há um consenso em torno das transformações que vêm ocorrendo na organização familiar – resultantes dos descasamentos, casamentos sucessivos, expansão do ciclo familiar, relativização dos papéis de gêneros – refletidas nas significativas mudanças no modo de ser homem e de ser mulher.

Em relação ao homem, objeto de nossa reflexão nesse texto, pesquisas acadêmicas revelam e em nossa rede de apoio familiar, profissional e social nota-se a presença de um homem interessado nos afazeres dos filhos e no sucesso profissional da esposa, aberto a dialogar sobre relacionamento afetivo e sexual, que reconhece a importância do vínculo afetivo e posiciona-se como defensor da fidelidade conjugal.

A mulher desse homem, não é eleita para ser só mãe de seus filhos, mas sim companheira dos afazeres do dia-a-dia, incluindo nesse perfil a disposição para acolhê-lo naqueles momentos difíceis e desoladores: um eventual desemprego, por exemplo. Caberia ainda a essa mulher o lugar da amante, no sentido de poder realizar as fantasias sexuais que habitam sua imaginação.

Para esse novo homem essa mulher seria um mix elaborado com os ideais sagrados – mulher pura e mãe dedicada, com uma pitada dos ideais profanos – mulher lasciva e despudorada, com os ideais da profissional bem sucedida – mulher independente, culta e feminina. Desse modo, esse novo homem silenciosamente vai redefinindo sua masculinidade, seja ao derrubando os padrões de mero reprodutor e de provedor econômico, seja no modo de sentir e expressar a paternidade.

Nessa categoria de novo homem alguns estão questionando até as novas técnicas de práticas reprodutivas nas quais eles são utilizados apenas como meros doadores de sêmem. Isto sem falarmos daqueles que estão se negando a desempenhar o papel de “serviço de manutenção sexual” utilizado por algumas mulheres – não se permitindo serem usados como prostitutos.

Outra característica desse homem contemporâneo é sua adesão ao paradigma da Nova Era. Sua presença é notada como defensor da qualidade de vida pessoal, social e do planeta, tanto quanto nos movimentos de defesa do meio ambiente e nos cursos de esoterismo e terapias alternativas.Voltado a vivenciar sua afetividade, se permite expressar-se inseguro e frágil diante das contingências da vida. Isto sem falarmos do cuidado com a alimentação. Dedica horas a caminhadas e/ou a academias, e não descarta os tratamentos que as clínicas de estética facial e corporal oferecem.

Outros mais ousados, seguindo o modismo, não dispensam um brinco, um anel, cabelos compridos, ou mesmo uma tatuagem com a última grife. Nota-se que esse novo homem responde às várias críticas das mulheres aos antigos machistas.

Estaria esse novo homem sendo admirado pelas mulheres?

Quando sabemos que nem todas as conquistas feministas conseguiram desfazer o estereotipo do homem seguro, viril e protetor que ainda alimentam o imaginário dessa nova mulher. Que homem poderia ser pensado para atingir o ideal feminino? Imagino esse tal homem dotado das qualidades já citadas do novo homem, mais a virilidade, a destreza, e autodeterminação que retro-alimentam as fantasias da nova mulher na busca do homem de seus sonhos.

No entanto, nesse processo de mudanças é possível identificarmos homens mais flexíveis e criativos. Alguns estão atentos a qualidade de vida a dois. Esses priorizam as singularidades dos gêneros, e se reconhecem co-autores dos novos significados na convivência familiar, bem como no modo de ser pai. O instigante é que cada gênero aprecie suas diferenças, pois nelas há a possibilidade de complementaridade,indispensável às novas dimensões do amor.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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