O dialogar e os impulsos da hipermodernidade

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

As transformações econômicas, sociais, culturais e midiáticas ocorridas a partir da segunda metade do século XX e da primeira década do século XXI vêm provocando impactos em todos os setores da sociedade.

Independente da classe social a que pertencemos, somos invadidos por um impulso/desejo de nos transformarmos para nos adequarmos aos novos modelos de família contemporânea; para entendermos o jeito de nos relacionarmos com todas as faixas etária – de crianças a idosos –; de inovarmos para compreendermos os modernos rituais religiosos; de atualizarmo-nos para suportar as concorrências e instabilidades do mercado de trabalho; de assumirmos as exigências de uma estética corporal para atender à demanda de uma representação de qualidade de vida difícil de ser atendida; de nos modernizarmos para fazer parte do Facebook vislumbrando encontrar amigos e quem sabe aquele(a) jovem do passado com quem trocamos olhares, beijos, abraços e ou até uma descompromissada relação sexual; de nos desinibirmos para postar fotos e relatos da convivência familiar para ser vista e comentada pelos “Facebookianos” entre muitos outros desses atos.

Enfim, todos curtem a visibilidade e clamam por admiração. Ser moderno é comunicar-se com o parceiro(a) na mesa do restaurante por torpedos – dialogar é cansativo. E pode desencadear reflexões criticas e até tomadas de decisões ponderadas. Dialogar dá trabalho. O sujeito moderno é movido pelo impulso – do aqui e agora. A estratégia dialógica demanda tempo, a escuta atentiva considera o desejo de compreender o(a) parceiro(a) da relação; e ou o(a) amigo(a); o(a) gestor(a) de trabalho; o(a) filho(a). O diálogo acontece na atenta escuta entre as partes envolvidas. O torpedo, por ser rápido, atende às exigências da interação hipermoderna. Superficial e efêmero.

Diante dessas novas exigências para adequar-se ao ‘ritmo’ contemporâneo, o sujeito não raro é surpreendido por uma profunda sensação de desorientação e, ao perceber-se sem norte, esse sujeito contemporâneo experiencia o sentimento de vazio/desesperança – por não reconhecer-se nesse novo padrão social que oscila entre as representações assimiladas e as novidades do ‘kit’ atual. Ou seja, há o esvaziamento das representações estáveis de vínculos afetivo-sexuais pela fluidez das relações cujo script a ser seguido é pautado pelo impulso do prazer imediato.

Nesse clima de incerteza, muitas vezes vivenciam o pânico, por perceberem que a solida construção de seu alicerce – aquele no qual acreditavam está ruindo. E agora: Que caminho a seguir? Como pode se dar esta transformação de maneira tão acelerada? Sabemos que ninguém está imune à influência da mídia. Precisamos adotar uma postura crítica em relação à imposição de cedermos ao impulso pelo prazer imediato. É preciso tempo; e limites são necessários e oportunos para nortear as decisões desejadas.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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