O adoecer com câncer e a (des)erotização do corpo

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

A percepção de que somos seres finitos nos arranca da ponderável e familiar concretude que nos é facultada pela nossa consciência corporal. O corpo é que nos possibilita o acesso aos prazeres da vida, o contato com os outros, o sentir cheiros, a percepção de sons e cores.

Enfim, nos depararmos com o belo, o estético e também com a dor, o desencanto e o sofrimento. O nosso corpo desvela a um só tempo a consciência das “instruções” genéticas, os sinais sutis das marcas dos controles sociais e o significado e sentido das experiências vividas, que constituem o que chamamos de nossa vida. Nossa vida inteira aí, no presente, em cada átimo de nossa existência.

Dessa perspectiva apresento ao leitor a horizontes de transformação do corpo masculino tendo como trilha o envelhecimento na interface com o erotismo e o adoecer com câncer de próstata.

O acometimento do câncer de próstata acentua o declínio da resposta sexual, da disfunção erétil e abala a identidade sexual. Nesse horizonte, o significado e sentido atribuído pelo homem ao processo de (des)erotização de seu corpo impõem ao homem o confrontar-se com o ideal de masculinidade, apreendido pelo paradigma patriarcal.

Desespero, humilhação e a angustia se instalam possibilitando, para alguns, o auto-acolhimento da transformação do corpo adoecido. Reconciliados pela afetividade de familiares se apropriam de si mesmos em seu existir autêntico com os outros. Os inconformados se desesperam pela “perda” da masculinidade – para esses, o sentido da vida se desvela nublado.

Assim o processo do envelhecer e do adoecer desvela as transformações do corpo em seus aspectos físicos, cognitivos, sexuais, emocionais, psíquicos e espirituais, entre outros, ao mesmo tempo em que lança o homem à perplexidade da impermanência de sua própria existência.

Criar espaços de diálogos e reflexões com vistas a engendrar a desconstrução do ideal patriarcal de masculinidade pode viabilizar o encontro do homem com seu existir autêntico.

A compreensão do profissional acerca do aprisionamento do homem com câncer de próstata ao ideal hegemônico de masculinidade pode ampliar sua escuta e seu diagnóstico no sentido de considerar as próprias limitações do homem para enfrentar a disfunção erétil, bem como para se reorientar em direção a conscientização da temporalidade do corpo que envelhece, adoece, deserotiza-se e morre.

Nesse processo terapêutico, o cuidado, o zelo, o respeito e a dignidade humana conduzem o homem com câncer de próstata a confrontar-se com a finitude da temporalidade de sua existência.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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