Mulher-mãe? Homem-Pai? Limites – uma forma de afeto

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

Pesquisa realizada com crianças e adolescentes pelo Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná em 2005 mostra, entre várias outras revelações, que 71% das crianças e adolescentes entrevistados clamam pelo afeto de seus pais. Essa constatação corrobora a realidade vivida por professores, que apontam para a correlação entre a forma como a família articula seus laços de afetos com os filhos, o grau de agressividade destes e as manifestações do comportamento das crianças na escola, bem como o seu baixo rendimento escolar. Dessa perspectiva os filhos espelhariam o comportamento da família. Não raro ouvimos mães e pais expressarem: “Eu não agüento mais essa criança; eu tenho que comprar tudo o que ela quer se não ela dá um espetáculo de choro e chutes, entre outros atos”.Um dado interessante – estão falando de crianças de apenas 4, 5 ou 6 anos. Outra mãe desolada diz: “Eu não resisto mais, estou exaurida, na hora de acordar meu filho de 14 anos para ir para a escola é um tormento diário”.

Os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes em suas queixas mais frequentes apontam que os filhos clamam por limites e mais atenção dos pais. O quadro esboçado ilustra a complexidade do relacionamento familiar. Creio que muitos pais estão dominados pelo desejo dos filhos e presos aos limites por eles estabelecidos. Alguns se percebem perdidos por não conseguirem estabelecer um clima familiar amistoso. Outros confessam que por terem sido educados com rigidez e severidade juraram não seguir a receita dos próprios pais. Acreditam que ao adotarem uma postura menos rígida estão sendo mais corretos. Nossa herança familiar, resguardadas as exceções, foi marcada por rígidos limites em nome de respeito aos mais velhos e, portanto, aos pais. Respeito este caracterizado pela ausência de diálogo e distanciamento afetivo entre os membros da família. Os filhos desse modelo familiar não tinham voz. Os maus tratos físicos como puxões de orelhas, beliscões e até surras de cintos, somados às humilhações psicológicas eram os meios, as estratégias que garantiam aos pais dar uma “boa educação aos filhos”.

Estamos aqui diante de dois exemplos. O primeiro refere-se à geração de pais atuais e o segundo à geração de pais que são hoje avós de muitos desses atuais. Percebe-se uma acentuada mudança de comportamento entre as gerações protagonistas desses exemplos. Uma é rígida demais, a outra flexível demais. E é sobre o espaço entre a rigidez e a flexibilidade de comportamento que proponho uma reflexão. Nota-se que cada geração recria sua dinâmica familiar, e nesse movimento alguns valores são deslocados, ou até mesmo abandonados enquanto outros são ancorados no modo de ser da nova ordem familiar.

Sem dúvida a mãe e/ou o pai podem intervir no controle excessivo que a criança e o adolescente almejam exercer na dinâmica familiar. Cabe aos pais perceberem o quanto cedem aos desejos dos filhos e indagarem sobre essas atitudes. Diálogos entre pais e filhos podem fortalecer os laços de afeto e de acolhimento e, assim, a convivência será facilitada. Outro aspecto é a tomada de decisão acerca dos limites para os filhos. Pais e mães devem explicitar-lhes as razões que fundamentam as normas de horários referentes às tarefas escolares, aos passeios e festas bem como à realização de seus desejos de consumo. Filhos são exímios conhecedores das fraquezas emocionais de seus pais e usam este conhecimento como estratégia de manipulação de um deles ou dos dois. Neste momento os pais precisam rever suas decisões de modo a poderem manter os pactos e alianças de confianças entre eles, mesmo quando separados.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidadevida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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