Crianças e adolescentes: sintomas familiares

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

Resultados da pesquisa realizada com crianças e adolescentes pelo Núcleo de Análise do comportamento da Universidade Federal do Paraná, publicada no jornal Estado de S.Paulo (14/08/05), mostra entre vários outros dados, que 56,1% de crianças com depressão e 73% daquelas com stress têm pais negligentes. Em relação à baixa auto-estima, a pesquisa revela que 71% dos filhos clamam pelo afeto de seus pais. Essa constatação corrobora a realidade vivida por professores, que revelam que há correlação entre a forma como a família articula seus laços de afetos com os filhos, o grau de agressividade dos mesmos e o baixo rendimento escolar, entre outras, e as manifestações do comportamento das crianças na escola.

Dessa perspectiva os filhos espelhariam o comportamento da família. Não raro ouvimos mães e pais expressarem: “Eu não agüento mais essa criança; eu tenho que comprar tudo o que ela quer se não ela dá um espetáculo de choro, chutes entre outros atos”. Um dado interessante – estão falando de crianças de apenas 4, 5 ou 6 anos. Outra mãe desolada diz: “Eu não resisto mais, estou exaurida, na hora de acordar meu filho de 14 anos para ir para a escola é um tormento diário. Essa situação anda atrapalhando até o meu relacionamento com meu marido. Sabe, ele se cansa de ouvir nossas brigas e aí ele interfere! Nessa hora chega até agredi-lo e aí eu interfiro não quero que ele faça assim”. Situações como essas compõem a dinâmica familiar de muitos pais. Situação análoga é apontada por profissionais que trabalham com crianças e adolescentes cujas queixas mais freqüentes apontam que os filhos clamam por mais atenção e afeto dos pais. Diante desse quadro é possível dizer quão complexo é o relacionamento familiar. Creio que muitos pais estão dominados pelo desejo e presos aos limites estabelecidos pelos filhos. Alguns reclamam e se percebem perdidos, desencantados por não conseguirem estabelecer uma dinâmica familiar que favoreça o respeito entre os membros. Outros confessam que por terem sido educados com rigidez e severidade, juraram não quererem repetir a receita de seus pais. Acreditam que ao adotarem uma postura menos rígida estariam corretos. Nossa herança familiar, resguardadas as exceções foi marcada por rígidos limites em nome de respeito aos mais velhos e, portanto aos pais. Respeito esse caracterizado pela ausência de diálogo, distanciamento afetivo entre os familiares. Os filhos desse tal modelo familiar não tinham vozes. Os maus tratos físicos como puxões de orelhas e beliscões, entre surras de cintos, somados às humilhações psicológicas eram os meios, as estratégias que garantiam aos pais dar uma “boa educação aos filhos”. Estamos aqui diante de dois exemplos: O primeiro refere-se à geração de pais atuais, o segundo a geração de pais que são avós de muitos dos atuais. Percebe-se uma acentuada mudança de comportamento entre as gerações protagonistas desses exemplos. Uma rígida demais, outra muito flexível. É frente a esse espaço, entre a rigidez e a flexibilidade de comportamento, que proponho refletir. Nota-se que cada geração recria sua dinâmica familiar e nesse movimento alguns valores são deslocados, ou até abandonados, e outros são ancorados no modo de ser da nova ordem familiar. Sem dúvida a mãe e/ou o pai podem intervir no controle excessivo que a criança e o adolescente exercem na dinâmica familiar. Não o faz porque somos constituídos também pelo e no desejo do outro.

Todavia, caberia aos pais perceberem o quanto cedem aos desejos dos filhos e ao mesmo tempo indagarem sobre essas atitudes. Que sintomas são esses? Compreender esses sintomas pode ser uma pista para chegarem às suas causas. Diálogos entre pais e filhos podem fortalecer os laços de afeto e de acolhimento e assim a convivência será facilitada. Outro importante aspecto é a tomada de decisão acerca dos limites para os filhos. Pais e mães devem explicitar-lhes as razões que fundamentam as normas de horários de tarefas escolares, bem como de festas e as de desejos de compras. Atente para a cumplicidade do cônjuge. Filhos são exímios conhecedores das fraquezas emocionais dos pais e podem usar, e usam efetivamente, esse conhecimento como estratégia para manipular um deles, ou os dois. Atitudes dessa natureza desestruturam a dinâmica familiar. Com isto não quero dizer que não poderão os pais rever os limites. Porém, quando isso for necessário o importante é que ambos mantenham os pactos e alianças de confiança entre si. Mesmo quando separados, essa unidade de pensamento e compromisso devem ser mantidos.

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