Ah! Amanhã eu faço!

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

“Nossa! Estou envergonhado de contar para ela, mas não paguei a conta do condomínio. Amanhã eu pago”. O mês seguinte chegou e a parceira descobriu que o parceiro não tinha efetuado o pagamento do mês anterior. Os namorados – ele diz: “Vamos viajar?! Pode deixar que eu cuido da reserva do hotel!”. O dia da viagem chegou e a reserva não havia sido feita. Ele justifica: “Tudo bem! Vamos curtir uma aventura…”. Ao que ela responde perplexa: “Aventura?! Em plena semana da Páscoa?”. Ele vai ao médico e assume: “Eu prometo, doutor, na próxima semana começo o regime. Eu sei que preciso emagrecer”(Ele tem diabetes).

Esses fragmentos ilustram o ato de procrastinar. Assim, prometendo, muitas pessoas vão adiando suas ações, deixando rolar projetos e metas. Essas e tantas outras ações vão se instalando e tornam-se estilos de vida. Multas desnecessárias, expectativas vãs, necessidades adiadas tornam-se hábitos e, com o decorrer dos anos, discussões corrosivas e o desencanto vão lentamente minando as relações familiares, sociais e profissionais. Imprevistos existem e todos nós procrastinamos. Mas, aqui, refiro-me àquelas pessoas para quem procrastinar é um hábito, um modo de ser. Essas têm sempre justificativas na ponta da língua: “Como posso dar conta de tudo?! Todos pedem ao mesmo tempo para eu fazer isso e aquilo… Estou exausta, estressada, não aguento mais. E o pior, ninguém reconhece o que faço!”.

Motivos para adiarem os compromissos são muitos: preguiça, insegurança, perfeccionismo, medo de ser avaliado, medo do desconhecido, do sucesso e da felicidade. O sucesso, para pessoas com autoestima fragilizada, é um horror! É um detonador de ansiedade. Diante da possibilidade de receberem elogios, serem promovidas, elas se autoboicotam. Algumas ficam até doentes, um jeito inconsciente de aliviarem o tormento desencadeado pela possibilidade de saírem do seu conhecido script de vítima. Outra característica desse perfil é a dificuldade dessas pessoas para lidar com Cronos, o tempo cronológico, marcado pelo relógio em suas dimensões perceptivas: o passado, o presente e o futuro, que se enlaçam na dimensão Kairós; que plenificam nossas ações de modo que possamos atribuir sentido ao planejamento de metas a serem executadas no tempo presente. Com essa dificuldade, não raro aprisionam o prazer, o lúdico, o desejo de dançar, a caminhada, o regime, o investir numa relação a dois, etc. Preferem procrastinar para o final da semana, do mês, do ano ou para quando a aposentadoria chegar. Desconhecem que, ao se aposentarem, os padrões psíquicos internalizados pelo ciclo de procrastinar o prazer não se aposentarão. Ao contrário, poderão até se fortalecer.

Sair desse ciclo de desprazer é possível para aquelas pessoas que se conscientizarem [muitas vezes, pelo processo terapêutico] das origens de seus padrões procrastinadores de modo a assumirem uma postura resiliente perante a vida. Assim, essas pessoas poderão refazer seus projetos e metas de sucesso/felicidade para serem vividos hoje!

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidade & Vida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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