Adolescência precoce: um fenômeno contemporâneo

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

A adolescência caracteriza-se por transformações físicas, hormonais, corporais, cognitivas, emocionais, psicológicas e sexuais, entre outras. Sua origem resultou da convergência de fatores sociais, culturais, econômicos, educacionais e científicos ocorridos no final do século XIX e início do século XX, sendo, então, compreendida como a fase de transição entre a infância e a vida adulta. É, portanto, uma criação/invenção da modernidade marcada por conflitos vividos entre os familiares em decorrência das crises que assolam o adolescente em relação à orientação afetivo-sexual; escolha profissional; busca de liberdade e autonomia.

Não raro, também o envolvimento com as drogas. Os ritos de passagem praticados por diversos povos são documentados e até hoje realizados no momento em que a imagem corporal da infância vai cedendo lugar ao processo do adolescer. Assim, o jeito de ser adolescente difere de cultura para cultura de acordo com a classe social, o grau de escolaridade, a etnia, o gênero no decorrer dos séculos.

No século XX, Freud – o pai da psicanálise – categorizou esse processo do adolescer como um período de latência, uma espécie de preparo do corpo em todas as suas nuances – físicas, hormonais, cognitivas, emocionais, sexuais, entre outras – para, lentamente, chegar à adolescência. Nos dias atuais, nota-se que esse período de latência está incrivelmente acelerado, quando não deixando de existir para muitas meninas, que a partir dos cinco, seis anos vêm se moldando ao estilo do adulto – frequentam o mesmo cabeleireiro da mãe, fazem maquiagem, tingem os cabelos, pintam as unhas, usam sapatos de salto, bolsas, pulseira, entre outros acessórios. Os meninos também seguem o modelito veiculado pela mídia – cabelo, roupa, sapatos de adulto. Ou seja, tornam-se uma miniatura do estilo sexy do adulto.

Para o olhar do adulto, no entanto, esse estilo pode ser decodificado como um apelo sexual. Cabe lembrar que crianças/adolescentes de todas as classes sociais estão expostas a imagens e mensagens de conteúdo sexual que deveriam ser exclusivas ao público adulto. Afinal, a indústria da mídia é movida pelo lucro e pela audiência e tem como público alvo crianças e adolescentes – que são seduzidos pelas estratégias criadas pelos exímios profissionais do marketing que, descompromissados com os danos que possam provocar nas crianças/adolescentes, os mantêm sempre alertas para a nova maquiagem, a nova pulseira, o novo relógio, a nova bolsinha, os novos modelos lançados no mercado. Refletir sobre a adultização e hipersexualização da infância e da adolescência é um desafio – são questões polêmicas, porém, necessárias e oportunas, que devem fazer parte dos diálogos dos pais com seus filhos e também dos diálogos na escola.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidade & Vida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

<Página anterior