A mulher diz “não” a abusos emocionais, verbais, agressões, torturas, assédios sexuais

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

A legalização do divórcio no Brasil completou 30 anos em 2007. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontavam 30.847 registros de divórcios em 1984, chegando a 179.342 em 2007 – um aumento de 200%. Essa realidade indica que o modelo “infelizes até que a morte nos separe”, vivido pelos nossos pais e avós, vem sendo abolido não só por casais jovens, mas também pelos mais velhos. O cenário familiar vem sendo modificado. As mulheres estão se emancipando da subordinação a homens insensíveis a realidade de uma sociedade em transformação permanente. Haja vista 70% das solicitações de separações e divórcios serem de iniciativas das mulheres.

A separação escancara a ruptura com paradigma patriarcal – alicerce das relações hierarquizadas entre os gêneros. Inúmeras são as razões apontadas: o investimento da mulher no seu projeto profissional; a significativa conscientização de seu lugar na esfera pública e privada; o engajamento do marido/parceiro nas responsabilidades educacionais e econômicas da família; a não tolerância com os atos de abusos (emocionais, verbais, sexuais), agressões, torturas, assédios, entre outros.

Enfim, a mulher vem dizendo não a todos os modos, ainda que sutis e dissimulados, de violência. Não suporta mais uma relação minada por maus tratos praticados pelo marido/parceiro íntimo que não a vê como mulher/companheira de uma jornada eleita a dois. A violência por parceiro íntimo é questão de saúde pública mundial, devido às seqüelas físicas e psíquicas das mulheres e de seus filhos. Partilhar um projeto de conjugalidade envolve abertura a reconhecer o espaço do outro.

Investimento emocional no projeto relacional é muito importante. Infelizmente, não há um investimento educacional/social/político perene voltado para a conscientização das desumanas desigualdades existentes nas relações de gênero. É preciso dizer: a separação nem sempre livra a mulher da violência de um parceiro íntimo. Não raro, inconformado por perder o “território de poder”, ele continua a agredi-la e, não raro, a mata. A mídia, falada e escrita, constata inúmeros desses casos. A violência é a denuncia da impotência de diálogo e a incapacidade de gerirmos democraticamente os conflitos nas relações familiares e sociais.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidade & Vida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.

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