A Ceia de Natal e a família reconstruída

Por Maria Alves de Toledo Bruns*

“Eu sigo a tradição de meus pais. A reunião é em casa. Natal é Natal. Passamos todos juntos. Para mim é sagrado esse encontro: filhos/as, netos/as! Hum… este ano está difícil. Meu filho separou da mulher. E agora? Convido a ‘ex’ – a mãe de meus netos, que já se casou e tem uma filhinha, que é irmã de meus netos? Mais uma dúvida: agora em relação à mulher de meu filho. Ela é descasada e tem dois filhos; convido-os também? Só agora estou percebendo a realidade de minha família. Meu Deus?! Que família é essa? Sabe não aceito essa mistura de gente que eu não conheço.” Após alguns minutos de silêncio, Madame X, casada há 40 anos e mãe de três filhos diz: “Sabe, vou ver no que dá, vou convidar todos.”

Essa é a realidade de muitas famílias brasileiras. Manter a tradição de reunir os familiares é possível, só que o ritual modificou-se com a composição da familiar reconstruída. A decisão de Madame X, convidar todos, é uma solução. E como tal necessita desconstruir a idealização da família nuclear/tradicional composta de pai e mãe e seus filhos/as, genros e noras “originais” e netos/as consanguíneos. Todavia, é preciso relembrar que essa não é e, na verdade, nunca foi o único tipo de família que conhecemos.Outros modelos de família sempre estiveram presentes na sociedade: a família do/a viúvo/a; a família da mãe solteira, a “família amasiada” composta por uma mulher e seus filhos com um homem já casado, que os sustentava economicamente embora não reconhecesse legalmente os filhos. Esses eram registrados no nome da mãe e considerados ‘filhos naturais’; “filhos da mãe natureza”. E, não raro, por ocasião da morte do ancião – o chefe da família nuclear – o “filho bastardo” saia do anonimato para reivindicar a parte que lhe cabia de direito na herança. Situação vivida com humilhação e discriminação por muitas pessoas Essas entre outras conhecidas histórias estão no acervo da composição familiar. Pesquisas apontam que uma em cada três crianças nascidas ao ano no Brasil não tem a paternidade reconhecida. São todos filhos ‘da mãe’. E o pai? Porque não assumi sua coautoria?

Outra desoladora e desumana situação era de mães solteiras. As de famílias em estado total de pobreza seguiam seu destino. Como sabemos, a pobreza é amiga íntima da ignorância. Viviam na penúria e vítimas do estigma – que envolve tanto mãe quanto o filho- dada a impossibilidade de reivindicar o reconhecimento da paternidade de seu rebento. A mãe solteira de família nobre era deserdada pelo pai – o patriarca –, o qual em nome da honra da família proibia todo e qualquer tipo de convívio/contato entre ela e os demais membros da família.

Porém, a realidade muda com o passar dos anos. A flexibilização desses rígidos valores desencadeados pelos avanços da ciência, a possibilidade do divórcio, o acesso à escola e aos meios de comunicação desencadearam questionamentos pertinentes de modo a viabilizar a retirada da “lente colorida” que mantinha a idealização da família nuclear. Essa representação de família perfeita foi revisitada em sua concretude pelos seus próprios componentes, que passaram a questionar os porquês de tanta hipocrisia. Conflitos, medos, dificuldades estão presentes e até hoje são difíceis de serem gerenciados. Por isso, apesar desses questionamentos, a família real, aquela que pode estar longe da idealizada, mas que efetivamente constitui este grupo social, é que está presente na ceia de Natal e em todos os segmentos da sociedade.

A exemplo da Madame X, todos devemos começar a retirar ‘a lente colorida’ e vivermos as experiências da família reconstruída, que, certamente, guarda também alegrias, prazeres e experiências enriquecedoras e não apenas dores e constrangimentos.

*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do Grupo de pesquisa Sexualidade & Vida e co-autora do livro “Educação Sexual pede Espaço: Novos horizontes para a práxis pedagógica”, editora Omega.
Email: toledobruns@uol.com.br

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